CONFERÊNCIA PRESIDIDA POR S.A.R. O SENHOR DOM DUARTE, DUQUE DE BRAGANÇA

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

CELEBRAÇÕES DO CENTENÁRIO DA BEATIFICAÇÃO DE SÃO NUNO DE SANTA MARIA

Foto de Real Associação de Guardas de Honra  dos Castelos, Panteões e Mon. Naci.

REAL DE LISBOA VAI VISITAR O PALÁCIO DA MITRA (LOURES)



No próximo dia 27 de Janeiro, pelas 10:00, a Real Associação de Lisboa realiza mais um Roteiro Real desta vez para uma visita ao Palácio da Mitra - Santo Antão do Tojal (Loures).

O Palácio da Mitra foi mandado construir pelo primeiro Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, entre 1728 e 1732, no lugar do antigo Palácio dos Arcebispos que já existia desde o séc. XIII. O seu conjunto arquitectónico, que inclui o Paço do Patriarca, o Palácio-Fonte e a Igreja/Capela do Patriarca, é único no contexto do urbanismo rural português. Nesta visita, vamos ter o privilégio de entrar num espaço privado e descobrir este exemplar único da arquitectura barroca, onde se destacam uma série de azulejos emblemáticos do séc. XVIII, as figuras de convite, escultura com mármores de Carrara ao gosto italiano e um jardim/horta onde ainda se conservam os pombais.

Esta visita, guiada pelo nosso associado Joel Moedas Miguel, tem lugares limitados e um custo de € 15,00 por pessoa. O ponto de encontro será no terreiro fronteiro ao Palácio.

Para mais esclarecimentos e inscrições, contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.


Contamos consigo!

A Direcção
Real Associação de Lisboa
Praça Luís de Camões, 46 2° Dto
1200-243 Lisboa
Tlf.: (+351) 21 342 81 15
Horário de atendimento: segunda a quinta-feira das 15:00 às 17:30, sexta-feira das 10:00 às 12:45


Nota - a Inscrição só é válida após o pagamento, não sendo possível o reembolso em caso de desistência.

RAINHA D. AMÉLIA: UMA MULHER AO SERVIÇO DO POVO

Foto de Nova Portugalidade.

Esta imagem devia estar em todos os hospitais portugueses. É uma grande lição de humildade e serviço. Em plena Grande Guerra, a Rainha Dona Amélia ofereceu-se como voluntária no Hospital Militar Central de Londres para cuidar dos feridos evacuados da Flandres. Organizou leilões e quermesses, doou parte dos seus haveres para equipar hospitais, preocupou-se com a sorte dos soldados do Corpo Expedicionário Português na frente ocidental, sobretudo os grandes mutilados.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

DOM MANUEL II CONVIDADO A PRESIDIR A PARADA DA VITÓRIA EM 1919

Foto de Nova Portugalidade.

Uma fotografia extraordinária, esta do exército português na parada de Vitória de Londres, em 1919, marcando o triunfo das armas portuguesas na Primeira Grande Guerra. Facto muito curioso é que o Rei Jorge V do Reino Unido convidou Dom Manuel II de Portugal, deposto nove anos antes e exilado então na Inglaterra, a presidir consigo à parada. Ao que parece, o embaixador português não gostou de gesto que lhe pareceu, não sem motivo, um desafio britânico à recentemente instaurada República portuguesa. Sem dúvida, um momento curioso na vida dos dois países.

Foto de Zé Barreiros.


OS GOESES PRESOS POR QUEREREM, SEREM E NÃO ABDICAREM DE SER PORTUGUESES


"Padre Chico Monteiro, homem de convicções profundas, foi sempre fiel aos seus princípios até nos momentos mais difíceis. Quando a 14 de Agosto de 1964 declarou à polícia indiana que pretendia manter a cidadania portuguesa, foi-lhe dado um prazo para continuar a residir em Goa. Ultrapassada a data, recusou-se a pedir a extensão da autorização. Tendo ignorado a ordem para sair da Índia, no prazo de quinze dias, foi processado e, após julgamento, condenado. Embora sujeito a ameaças e preso em Mapuça, no Forte de Reis Magos e em Patiala (Punjab), recusou terminantemente abandonar Goa, porque tinha a plena convicção de que se assim procedesse as autoridades oficiais jamais o autorizariam a regressar à sua terra natal."

São linhas que todos os difamadores de Portugal deviam ler.



Padre Chico Monteiro, o patriotismo português em Goa

O padre Chico Monteiro, natural de Candolim, Goa, nascido a 1 de Fevereiro de 1918 e falecido em 29 de Outubro de 1990, é praticamente desconhecido da maioria dos portugueses, mas os que fizeram serviço militar em Goa, ou por qualquer outra razão estiveram no antigo Estado Português da Índia, conhecem-no e reconhecem não só a importância que teve na educação de uma geração de jovens estudantes como a influência que exerceu na sociedade goesa.

Foi fundador e director do Lar dos Estudantes, sito no Altinho, em Pangim, e professor de religião e moral no então Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, localizado na capital goesa.

Dedicou a vida a servir o próximo, sobretudo no campo educacional, do desporto e de apoio às instituições de caridade e solidariedade, pugnando pela melhoria de condições morais e espirituais dos carenciados.

No âmbito do vasto programa anual de comemoração do centenário de seu nascimento, vão realizar-se diversas iniciativas em Goa, entre elas a sessão de homenagem no citado Lar dos Estudantes, inauguração de um monumento comemorativo, lançamento do livro sobre a vida e obra deste ilustre sacerdote, bem como um torneio de futebol. É justo recordar que o Padre Chico foi a alma da equipa de futebol da Académica de Goa.

Com o decorrer do tempo os ventos da história mudaram e hoje a relação Portugal-Índia é excelente, graças ao esforço diplomático dos países e à visita de António Costa à Índia. Mas nem sempre foi assim e os factos não podem cair no esquecimento.

Goa, conquistada definitivamente por Afonso de Albuquerque a 25 de Novembro de 1510, foi invadida e conquistada pela União Indiana, a 18 de Dezembro de 1961, e anexada. A história tem comprovado que é nos momentos mais conturbados que se destacam as grandes figuras.

Padre Chico Monteiro, homem de convicções profundas, foi sempre fiel aos seus princípios até nos momentos mais difíceis. Quando a 14 de Agosto de 1964 declarou à polícia indiana que pretendia manter a cidadania portuguesa, foi-lhe dado um prazo para continuar a residir em Goa. Ultrapassada a data, recusou-se a pedir a extensão da autorização. Tendo ignorado a ordem para sair da Índia, no prazo de quinze dias, foi processado e, após julgamento, condenado. Embora sujeito a ameaças e preso em Mapuça, no Forte de Reis Magos e em Patiala (Punjab), recusou terminantemente abandonar Goa, porque tinha a plena convicção de que se assim procedesse as autoridades oficiais jamais o autorizariam a regressar à sua terra natal.

No Portugal hodierno, foi preciso Marcelo Rebelo de Sousa ser eleito Presidente da República para se recuperar o sentido mais profundo de patriotismo e os portugueses deixarem de ter vergonha de empregar esta palavra, carregada de simbolismo.

São homens portadores da estatura cívica e moral de padre Chico Monteiro que fazem a diferença entre o comum dos mortais e os que deixam um legado para as gerações futuras. Nunca serão esquecidos, pois ganharam a distinção e, por mérito próprio, continuarão a fazer parte da história.

Valentino Viegas
Historiador

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O MAPA COR DE ROSA, SERPA PINTO E O ULTIMATUM DE 1890

Foto de Nova Portugalidade.

Há precisamente 128 anos Portugal recebia, à margem do Tratado de Windsor, o «Ultimatum» Inglês. Foi uma vil e desonesta atitude por parte da coroa britânica, que estimularia a instabilidade e o declínio da governação portuguesa no final do século XIX e início do século XX. Em meados de oitocentos, a Europa acorda perante a descoberta de uma nova fonte de rendimento: o poderio colonial. Começam a debruçar-se nessa altura alguns países europeus sobre novas formas de colonização e ocupação dos territórios africanos, elevando as potências europeias que agora se interessam pela África a ocupação efectiva, o conhecimento geográfico e o avassalamento dos território a fonte de legitimidade para a posse. O motivo era claro: mantivessem-se os direitos históricos de descoberta e vassalidade até ali reconhecidos, quase toda a África teria acabado na esfera portuguesa.

Em Lisboa, um grupo de notáveis funda a Sociedade de Geografia no ano de 1875, sendo também criada a "Comissão da África" com o objectivo de se debruçar para as possibilidades de Portugal continuar o investimento nas campanhas de avassalamento, mapeamento e exploração do interior africano. Estas campanhas não eram novas, pois Portugal não era estranho ao interior africano: já no século XVI tivera forças militares no Monomotapa; no século XVIII, ainda, fora o primeiro a atingir o coração de África com a expedição de Francisco de Lacerda, em 1798. Seguiram-se numerosas empresas de exploração e mapeamento e, em 1876, um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, Alexandre de Serpa Pinto, desembarca em Luanda afim de atravessar o continente africano de Benguela, à contracosta. Esta expedição em que Portugal investiu e que resultou num sucesso, tornada possível pela vontade intensa e coragem de quem a levou avante, tinha também como fim fazer o reconhecimento do território e cartografar o interior daquele continente, para preparar a entrada de Portugal na discussão pela ocupação dos territórios africanos que até então apenas utilizara como entrepostos comerciais ou destino de degredados; à semelhança do que outras potências já tinham feito.

Porém, a instabilidade que a disputa do Congo gerava levou o Chanceler do Império Alemão, Otto Von Bismark, a convocar a Conferência de Berlim (1884-85) com o objectivo de decidir a ocupação e divisão dos territórios (partilha de África), e regulamentar as regras de colonização. Assim, uma série de países europeus estiveram à mesa em Berlim, para decidir o futuro africano. É nesta altura que Portugal apresenta o célebre Mapa Cor-de-Rosa, elaborado pela Sociedade de Geografia, em que, cedendo à França na Guiné e à Alemanha no Sul de Angola, Portugal une os seus interesses entre Angola e Moçambique. Portugal tinha agora uma nova missão: ocupar efectivamente a zona que reclamara e que lhe fora atribuída.

Dois anos mais tarde, o primeiro ministro britânico recusou reconhecer aqueles territórios que considerou que não estavam ocupados com força suficiente para manter a ordem e desenvolver a região, proteger os estrangeiros e controlar o comércio. Os interesses da Grã-Bretanha naqueles territórios deviam-se à aspiração megalómana da construção de uma ferrovia que ligava o Cabo ao Cairo, cruzando toda a África, e afirmando a Inglaterra como a maior potência colonial, bem como todos os recursos e benefícios económicos que isso acarretaria. Como é óbvio, esse megaprojecto nunca foi executado, pelos custos brutais de que dependia, e pelas dificuldades ao nível da geografia das regiões por onde a linha de comboio passaria. Portugal, tenta dar uma resposta, quase imediata, actuando no terreno. Em Janeiro de 1890, desembarca na costa Atlântica Paiva Couceiro o major Serpa Pinto com as suas tropas, que no vale do Niassa dirige as suas tropas a todas as aldeias e povoados que a Inglaterra estava a tentar monitorizar. Apesar de não haver qualquer presença britânica, as tropas inglesas tinham hasteado a bandeira do Reino Unido em várias aldeias indígenas. Serpa Pinto vai falando com os régulos e convencendo-os que a presença portuguesa lhes trazia mais vantagens do que a britânica e arreia todas a bandeiras britânicas que estavam hasteadas nas comunidades por onde passava. Em certa parte do caminho, o major e as tropas são interrompidos por um oficial inglês, que impediu as tropas portuguesas de continuar o seu percurso, alegando que o país dos macololos estava em guerra, e que o rei dos macololos estava sob a protecção da coroa britânica. A esta intervenção inesperada, Serpa Pinto responde com uma carta muito elegante, dizendo que «ainda bem» que o rei dos macololos está sobre a protecção da coroa britânica, pois se está sobre a protecção da coroa britânica, também está sobre a protecção da coroa portuguesa, uma velha aliada sua. Foi chamada a esta atitude corajosa de afronta ao altivo e orgulhoso nariz britânico, o «incidente Serpa Pinto». Furiosos, os Ingleses, a 11 de caneiro do corrente ano, lançam a partir de Londres para Lisboa o «ultimatum» que obrigava as tropas sob a bandeira das quinas a retirarem-se dos espaços monitorizados pelos ingleses, caso contrário era declarada guerra. D. Carlos, sem margem para manobra, cede.

O que seria da Portugalidade, hoje, se por ventura os ingleses tivessem reconhecido - como era o seu dever - a soberania de Portugal na Rodésia e na Zâmbia? Teria, logo a seguir à conferência de Berlim, o frio vitorianismo negociado somente a presença inglesa em territórios portugueses? É uma questão que fica para divertir o pensamento de cada um. Talvez existisse hoje somente um imenso Estado africano de língua e cultura portuguesas entre as costas angolana e moçambicana?

Tomás Severino Bravo

O BOM FEMINISMO O PRATICÁVAMOS NÓS, PORTUGUESES, NA ÍNDIA HÁ 500 ANOS

Foto de Nova Portugalidade.

O Sati era o ritual hindu pelo qual se imolava a esposa viúva por ocasião da morte do marido. Praticada na Índia desde antes do nascimento de Cristo, o espectáculo horrendo de viúvas devoradas pelas chamas constituiu, compreensivelmente, objecto de choque para numerosos viajantes que visitaram o subcontinente. Só recentemente, contudo, terá desaparecido por completo, datando a actual legislação indiana que o proíbe apenas de 1987. Motivo relevante para a sobrevivência da pavorosa superstição foi a tolerância, e até apoio, que lhe prestaram as autoridades britânicas nas áreas da Índia que lhe couberam. Com efeito, nem os funcionários da Companhia Inglesa das Índias Orientais parecem ter-se sentido particularmente incomodados com o espectáculo de mulheres inocentes oferecidas ás chamas, nem parecem elas ter encontrado motivo algum para limitar a prática até, imagine-se, a 1829. Pelo contrário, os funcionários da Company incentivaram-na abertamente, pois tornou-se seu hábito prestigiar os rituais com a sua presença. O historiador A.F. Salahuddin Ahmed, que estudou cuidadosamente o assunto, refere que a participação de dignitários da Companhia "not only seemed to accord an official sanction, but also increased its prestige value". O resultado foi grande crescimento na prática do Sati nos primeiros anos do século XIX, tendo o seu número crescido de 378 to 839 na província de Bengala entre 1815 e 1818. O bárbaro ritual só seria banido em 1829 e após persistente campanha contra ele por missionários anglicanos.

Na Índia portuguesa, muito diferentemente, o Sati fora banido logo em 1515, ou mais de trezentos anos antes. Procurando concretizar o seu projecto de conquista de Goa, Afonso de Albuquerque firmara uma aliança com a comunidade hindu da cidade e com o corsário Timoja, entretanto tornado vassalo do Rei de Portugal. Albuquerque prometera plena liberdade religiosa a muçulmanos e, particularmente, a hindus - estes últimos ter-se-ão decidido a apoiar os portugueses com reacção às repressões de que eram vítimas pelos conquistadores muçulmanos. Consumada a conquista da cidade, todavia, foi obrigado Albuquerque a reconsiderar a promessa ao assistir ao Sati. O ritual hindu horrorizou-o a ele e aos restantes portugueses, cuja sensibilidade cristã quedou chocada; Albuquerque decidiu-se a agir energicamente e, reiterando não pretender infringir desmedidamente os direitos dos hindus subjugados, proibiu por completo aquela prática obscena. Quantas mulheres foram salvas ao longo dos séculos por aquele assomo de consciência não pode ninguém saber, mas o que parece incontestável é que inumeráveis viúvas inocentes ficaram a dever a vida ao Governador da Índia e, sim, à obra civilizatória que Portugal produziu na Índia. Resta saber quando é, afinal, que a Albuquerque se reconhece o seu papel como eminente lutador pelos direitos das mulheres.

RPB

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

HOMENS DE TODO O MUNDO CONSTRUÍRAM A PORTUGALIDADE

Foto de Nova Portugalidade.

Retrato de D. Miguel de Castro, nobre, baptizado por Portugal, enviado do reino do Congo ao Recife. 
Pintura a óleo sobre madeira, pela mão de Albert Eckhout, 1644.


INFANTA DONA MARIA ADELAIDE DE BRAGANÇA

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Reportagem transmitida a 31-Jan-2012 na SIC no "Jornal da Noite" na sequência do reconhecimento da coragem e tenacidade pelo Estado Português.

Livrou-se da morte por Salazar lhe ter concedido passaporte diplomático. Foi salva da deportação para a Sibéria por ter ajudado comunistas austríacos. Quando regressou a Portugal, deparou com o despovoamento intelectual da classe dirigente. Um exemplo da convivência difícil de monárquicos e católicos com o regime nos anos 50.

Dona Maria Adelaide de Bragança van Uden, neta do rei Dom Miguel, morreu na sexta-feira, na Caparica. Tinha feito 100 anos a 31 de Janeiro.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Mérito pelo P.R.. Neta do rei Dom Miguel, tem uma história impar. Viveu e sofreu as duas guerras mundiais do século passado. Participou na resistência ao nazismo. Lançou inovadoras obras sociais em Porto Brandão, no início da industrialização da margem sul. "Mafalda" – nome de código na Resistência –, Infanta de Bragança, foi protagonista de uma intensa vida.

"Ela nunca nos falou disso abertamente, só com a idade e com alguma pressão começou a falar, lá de vez em quando vai contando", diz Nuno van Uden, filho de Dona Maria Adelaide de Bragança. "Disso" é o resumo de anos de risco. Correu-os seguindo o princípio de ultrapassar o temor: "Ter medo de ter medo." Na Áustria enfrentou a ocupação nazi. Com todas as consequências. Em 1944, com a sua irmã Maria Benedita foi presa e condenada à morte por ouvir a BBC. As pressões de Oliveira Salazar junto do Reich e a concessão de passaporte diplomático português salvaram-lhes a vida.

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"Esteve detida durante mais de cinco meses", calcula o filho. Terão sido nove os meses de cativeiro. Então, na cela ao lado da prisão de Viena estava o conde Claus Schenk von Stauffenberg, que liderara o atentado falhado contra Hitler. "Tudo o que vi obrigou-me a empenhar-me a sério na Resistência", confirmou a Raquel Ochoa, autora da biografia A Infanta Rebelde (Oficina do Livro, 2011).

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Nas mãos da Gestapo

Foi assim que passou a integrar a rede da organização 05. Se a entrada dos nazis em Viena e a anexação da Áustria, em 1938, impediram que concluísse o curso de Enfermagem no hospital de Rudolfinerhaus, a resistência ganhou um elemento determinado e corajoso. Uma activista católica formada em assistência social. "Cheguei a saber onde iam ser lançadas as armas para a nossa e outras organizações a que estava ligada", recordou no livro. Entre elas, entidades austríacas de apoio a judeus, britânicos e comunistas.


Dava apoio a clandestinos, organizava transportes de armas e alimentos que os ingleses lançavam. Tinha o nome de código "Mafalda", em homenagem a uma sua irmã já falecida. Perto do final da guerra é novamente detida pela Gestapo. No bolso de um militante comunista foi encontrado o seu número de telefone e, apesar de ter fugido da sua casa na localidade de Seebenstein, acaba por ser capturada em Viena. A repressão nazi encheu a prisão de resistentes, alguns dos quais passaram a estar detidos num hotel ocupado para este efeito pelos alemães. Foi aqui que viveu quatro meses de cárcere com inquietação e perplexidade. Não muito longe do quarto onde a encerraram estavam armazenados os registos dos militantes a eliminar pelas tropas alemãs.

"Estava muito interessada em que esta lista desaparecesse", refere no livro de Raquel Ochoa. "Por isso dei a indicação onde deveria cair a bomba." O bombardeamento foi certeiro. E a actividade de "Mafalda" ganha, assim, outros contornos, para além de resistente. A sua colaboração com os ingleses era estreita. "Há uma série de coisas que quem está na resistência tem de esquecer, porque nos interrogatórios pode ceder e pôr em causa a organização", explica Nuno van Uden. Aqui encontra a razão para que a sua mãe só de "vez em quando" se recorde deste passado. São fragmentos. Episódios. Longe de um relato.

A entrada das tropas do Exército Vermelho em Viena não lhe devolveu a liberdade. Por ser resistente não comunista e aristocrata, tinha a rota marcada: a deportação para a Sibéria. A tão desejada destruição dos arquivos nazis por uma bomba teleguiada pelas suas informações impedia, agora, a confirmação do motivo da sua prisão. No entanto, a explosão não destruíra todos os documentos. Por acaso e muita sorte, um oficial russo encontrou a ordem de prisão da Gestapo. Na ficha constavam as razões da detenção de "Mafalda": o seu relacionamento com um comunista. Dois dias antes de ser deportada, foi libertada. "Foi assim que me safei", relatou na sua biografia. Com a entrada das tropas aliadas em Viena, em liberdade numa cidade destruída, integrou as equipas da Cruz Vermelha Internacional que auxiliavam feridos e doentes. Nessa missão de enfermeira com curso inacabado, faltava-lhe a última cadeira, conheceu Nicolaas van Uden, um jovem estudante de Medicina holandês. Com ele se casou sem luxos de Infanta.

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A descoberta de Portugal

A África era o destino sonhado pelo casal. A Etiópia seria a primeira paragem de um percurso desejado para assistir as populações locais. Contudo, em 1948, pela primeira vez na sua vida, pisou solo português. Aterrou no aeroporto de Lisboa com o marido e dois filhos. Foi o fim do exílio. Acabam por instalar-se numa quinta em Murfacém, na Trafaria, que pertencera a Nuno Álvares Pereira.


Dona Maria Adelaide de Bragança descobre o seu país. Um país pobre, de múltiplas carências. Visita as barracas de Porto Brandão, os galinheiros onde vivia a mão-de-obra nos primórdios da industrialização da margem sul. Cenários de muitas necessidades. De profunda miséria. Uma revelação que a incomoda. Lança uma obra social, à margem dos usos e costumes do regime. Com sentido prático e sem pose. Chamou-lhe Fundação D. Nuno Álvares Pereira. E descobre também o despovoamento intelectual do regime. Uma confrangedora falta de ideias e iniciativas para quem, nascida em 31 de Janeiro de 1912 em Saint-Jean-de-Luz, junto à fronteira hispano-francesa, sempre vivera na activa Europa central da primeira metade do século passado.

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Agradecida a Salazar por a ter salvo das garras da Gestapo em 1944, vivia uma contradição pessoal. "Caiu-me muito mal saber que ele trouxe um oficial da Gestapo para ensinar a PIDE a reprimir os comunistas e todos os seus opositores", admite a Raquel Ochoa.

A sua perplexidade não é caso único entre monárquicos e católicos. "Nos anos 50, a frente política criada por Salazar começa a desfazer-se", refere o historiador Fernando Rosas. "Dessa frente faziam parte monárquicos, católicos e militares." Com o fim da II Guerra Mundial e o início das transformações económico-sociais do regime aparecem as contradições. Dona Adelaide de Bragança anota-as na sua observação do quotidiano de dificuldades de quem ajuda em Porto Brandão. Afinal, a sua experiência na Europa central era de outras práticas sociais e de um desenvolvimento diferente.


"Como o país está a industrializar-se, tornou-se mais patente a injustiça da distribuição, à sensibilidade católica choca a pobreza", anota Fernando Rosas. A infanta não está apenas chocada. Nem reserva só para si as imagens que vê. Filma-as para despertar a consciência da gente da sociedade. São os tempos de outros "despertares" e do consumar de dissidências. "É o caso de Humberto Delgado, Norton de Matos e do padre Abel Varzim", exemplifica Rosas.

A aspiração de Dom Duarte Nuno

O incómodo de Maria Adelaide tinha ainda outros motivos. Sendo neta de Dom Miguel, portanto monárquica, via que o papel dos seus no regime de Oliveira Salazar não estava definido. "A política de Salazar jogou com monárquicos e republicanos, tentando reter o apoio dos monárquicos sem alienar os republicanos", refere o historiador Rui Ramos. Até porque, acrescenta, o ditador "não é monárquico nem republicano". Para ele, é indiferente a questão do regime que marcara o fim do século XIX e as primeiras duas décadas do século XX. A Infanta também não desconhecia que uma hipotética restauração da Monarquia não estava na agenda política do regime. Afinal, que o seu irmão Dom Duarte Nuno nunca reinaria. "Salazar utilizou a divisão da Família Real entre miguelistas e constitucionalistas para conseguir o máximo consenso com o mínimo custo", alerta Ramos. E recorreu a um expediente tradicional, uma forma de controlo primária, mesmo grosseira mas eficaz. "Salazar teve sempre muito cuidado para que a Família Real não tivesse meios, de que nunca conseguisse ter autonomia financeira, pelo que não deixou que herdassem os bens de Dom Manuel", acentua. Em síntese: queria a realeza "dependente e vulnerável".


Não era única a contradição pessoal de Dona Maria Adelaide de Bragança com o regime salazarista: no seu agradecimento, enquanto "Mafalda", pela concessão do passaporte diplomático que a salvara do fuzilamento; na limitação das suas aspirações como Infanta; no seu olhar crítico como cidadã. De algum modo, expressava a dúvida maiúscula de alguns sectores monárquicos. "Perguntavam-se se a melhor situação era estar ao abrigo do Estado Novo", explicita o historiador Rui Ramos. É quando no seio dos que apoiaram o regime aparecem as primeiras dúvidas.

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Perfil publicado originalmente a 8 de Fevereiro
O texto foi actualizado para incluir informação sobre a morte de Dona Maria Adelaide de Bragança

Nuno Ribeiro
Público, 25 de Fevereiro de 2012









segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

NÃO DEIXEM DE COMPRAR: FAMÍLIA REAL PORTUGUESA EM DESTAQUE NA ELES&ELAS N.º 301






Foto de Revista Eles & Elas.


Revista Eles & Elas

2018, CEM ANOS DEPOIS DO PRESIDENTE-REI

Foto de Nova Portugalidade.

No terrível ano de 1917, o que aparentava ser um vulgar golpe de Estado com o objectivo de afastar do poder Afonso Costa depressa se transformou numa experiência política tão insólita como inovadora em Portugal e na Europa.

A chegada de Sidónio Pais ao poder foi fruto das circunstâncias ditadas por um dos períodos mais dramáticos da nossa história do século XX, foi em grande parte uma resposta aos problemas criados pela Grande Guerra. A falta de matérias-primas e géneros de primeira necessidade e o consequente agravamento da inflação provocaram o caos tanto nos países europeus beligerantes como nos neutrais. 

Sucederam-se quedas de governos. Portugal não foi excepção.

Essa pressão das condições provocadas pela guerra e a determinação inabalável da ditadura militar em manter o poder, a qualquer custo, vai adiando o inevitável. Mas será impotente para contrariar a crescente onda de contestação.

Nascido em 1872 em Caminha, Sidónio Pais entra com 16 anos para a Escola do Exército onde tirou o curso de Artilharia. Em 1895 já tenente frequenta a Faculdade de Matemática em Coimbra onde será mais tarde catedrático da cadeira de Cálculo Diferencial e Integral.

Sabia-se que não nutria simpatias pela monarquia mas como militar não entrou cedo na vida política activa. Logo após o 5 de Outubro é senador e faz parte do ministério de Manuel de Arriaga como ministro do Fomento e depois como Ministro das Finanças.

Em 1912 é nomeado ministro plenipotenciário em Berlim e assim enquanto representante de Portugal consegue credibilizar o novo regime junto do Governo Alemão. Ao mesmo tempo vai salvaguardando os interesses de Portugal em África, numa altura em que é conhecido o intenso interesse germânico por Angola.

Confirmado o sucesso do golpe militar a 8 de Dezembro Sidónio foi surpreendido com banhos de multidão e aclamado como um salvador, numa conjuntura dantesca de fome e epidemia. 

As manifestações populares de apoio, numa dimensão sem paralelismo na República, que testemunha de Norte a Sul do país convencem-no da disponibilidade nacional para uma ampla reforma do sistema político.

Na mente do novo líder e dos seus colaboradores mais próximos surge o esboço de um novo regime. Uma “Ideia Nova” que ultrapassasse os obstáculos dos partidos republicanos tradicionais e do sistema parlamentar.

Sidónio declarou-se ‘chefe de todos os portugueses’, ‘mandatário da nação’ legitimado pela eleição por sufrágio universal, o que acontecia pela primeira vez. O sistema político, até aí “parlamentarista”, passou a “presidencialista”, à americana, com um Presidente da República que era também chefe do governo.

Em Fevereiro de 1918, acumula a chefia do governo, com as pastas dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e a presidência da República Nova que se destacou por uma intensa actividade legislativa e administrativa.

Através de um senado profissional em vários domínios da governação, em apenas alguns meses implementa de imediato as seguintes medidas. No campo social, um consiste plano para estimular a criação de residências sociais em Lisboa e Porto de forma a institucionalizar as reformas necessárias para melhorar as precárias condições de vida.

A faceta mais visível desta política de ajuda aos mais carenciados é a distribuição de alimentos, a conhecida ‘Sopa de Sidónio’. Com a sua presença nas diversas cozinhas, cultiva a imagem de presidente generoso e amigo dos mais desfavorecidos.

O seu governo dedica grandes verbas no combate às duas epidemias que atingiam o país - a febre tifóide e a gripe pneumónica.

No âmbito do modelo económico sidonista, a agricultura passa a ser encarada com sector fundamental traduzindo-se no aumento dos preços agrícolas, até aí mantidos artificialmente baixos, na proibição de exportação de adubos e mais facilidade de acesso ao crédito agrícola.

São também desenvolvidas medidas orientadas para elevar a capacidade de produção nacional e travar a especulação sobre produtos de primeira necessidade.

Outras linhas de força da política sidonista é a restituição das relações diplomáticas entre estado e a Igreja Católica.

Este regime, assente na figura carismática do presidente, é uma experiência inovadora e que antecipa em diversos aspectos - populismo carismático - a tendência totalitária de vários governos desenvolvidos na Europa durante o período entre as guerras mundiais. Por isso, Benito Mussolini chegou a considerá-lo a figura-chave na criação do fascismo.

Na noite de 14 de Dezembro de 1918, dirigia-se para a estação do Rossio a fim de apanhar um comboio para o Porto. Quando a multidão que sempre o esperava o vê surgir, ovaciona-o como sempre. Entretanto a banda da Guarda Nacional Republicana começara a tocar o hino nacional. Sidónio vaidoso, ao ver tamanha multidão terá dito "Que quantidade de gente! É então baleado à queima-roupa, por balas vindas de duas direcções. Apercebendo-se do sucedido, terá dito: "Mataram-me! Morro, mas morro bem! Salvem a Pátria...".

Será mais tarde apelidado de “presidente-rei”, pelo poeta Fernando Pessoa, seu contemporâneo e confesso admirador, numa alusão ao líder carismático escolhido pelo povo para o seu governo.

Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!
(…)
Flor alta do paul da grei,
Antemanhã da Redenção,
Nele uma hora encarnou el-rei
Dom Sebastião.”

Em apenas um ano de presidência, protagonizou o primeiro momento do republicanismo português e marcou de forma indelével o século XX. Muitas vezes esquecido, foi, sem dúvida, um dos políticos mais importantes de Portugal.

Gonçalo de Sampaio e Melo

domingo, 14 de janeiro de 2018

BRUMAS DE LIAMPÓ: ENCLAVE PORTUGUÊS NA CHINA ANTERIOR A MACAU

Foto de Nova Portugalidade.

Nos primórdios do século XVI, várias décadas antes de Macau ser uma realidade, os mercadores portugueses tinham licença para negociar em Chincheu, no estreito da Formosa, actual província de Fujian, e em Liampó (Ningpo), na região de Xangai. E foi esse relativo à-vontade de circulação que levou muitos aventureiros portugueses a deambular ao longo do litoral da China em navios liderados por capitães das mais variadas nacionalidades do Oriente.

António de Faria, personagem da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, foi talvez o mais famoso desses homens. Acicatava-o um ódio de estimação, o temível pirata Coja Acém, que ele acabaria por encontrar, derrotar e matar numa batalha travada algures em Dong Hai, no mar do leste da China, a umas 500 milhas da feitoria portuguesa de Liampó, onde António de Faria saberia que essa notícia seria muito bem recebida.

Antes de aí aportar, Faria teve o cuidado de enviar um emissário à cidade dando conta da morte do temido pirata, preparando assim uma mais do que previsível entrada triunfal. Manteve-se, entretanto, como medida de precaução, ancorado ao largo, longe dos olhares indiscretos, pronto para uma rápida partida caso as coisas não corressem de feição.

Na época toda aquela região era bastante arborizada, pelo menos a julgar pelo descrição do autor da “Peregrinação”, que refere “bosques de arvoredo muito basto de cedros, carvalhos e pinheiros mansos e bravos, de que muitos navios se provêem de vergas, mastros, tabuado e outras madeiras, sem lhes custarem nada”.

António de Faria seria, de facto, recebido como um herói, com salvas de canhão e um cortejo marítimo. Enquanto era conduzido à presença dos mais altos dignitários da cidade, transportado num luxuoso palanquim, sempre rodeado por belas mulheres chinesas, o capitão-corsário pôde apreciar as músicas interpretadas por grupos da China, Malásia, Bornéu e Sião, porquanto a feitoria de Liampó, pela importância do comércio ali praticado, acolhia navegadores de todo o Extremo-Oriente, que desejavam negociar sob a protecção das autoridades portuguesas.

Era tal a gratidão da população a António de Faria, por tê-los livrado do mais temido dos piratas, que até os padres, também eles dedicados aos negócios, expressaram o seu contentamento mandando tocar os sinos a rebate na igreja da Nossa Senhora da Conceição, a igreja matriz, pois havia no entreposto outras seis ou sete.

Aqui há uns anos tive oportunidade de visitar Ningpo e um dos locais que mais me chamou a atenção foi a Tianzhou Jiaotang (Catedral do Sagrado Coração), situada não muito longe do embarcadouro de ferries e que, de resto, era conhecida como “igreja portuguesa”. De acordo com uma informação local a que tive acesso, essa igreja teria sido “construída em 1628, posteriormente destruída e reconstruída no século XIX”, numa altura, portanto, em que a feitoria já não existia, o que nos deixa perante um dilema. Teria sido essa igreja construída posteriormente por jesuítas (não há notícia da existência de uma residência da Companhia de Jesus em Ningpo, embora essa congregação estivesse instalada noutras cidades da região) ou por chineses convertidos? Ou, muito simplesmente, representará a designação “igreja portuguesa” tão-só a memória de um passado cuja geografia nem sempre é fácil de identificar e tão pouco coincide com os factos históricos?

Segundo Fernão Mendes Pinto a feitoria portuguesa de Liampó era uma verdadeira cidade europeia implantada à porta da milenar e vestuta civilização chinesa, contando na altura “com cerca de mil casas, com o seu conselho de vereadores, um funcionário da justiça, e vários empregados administrativos”. E essa feitoria, devidamente documentada nas fontes chinesas, situar-se-ia nas ilhas de Shuangyu, arquipélago de Zhoushan, nas proximidades da cidade chinesa de Ningpo, o que afasta a hipótese de serem encontrados vestígios dela no continente.

O historiador Jin Guo Ping considera que “no caso de Liampó houve um fundo histórico verdadeiro, mas um pouco exagerado no que se refere à envergadura deste primeiro estabelecimento português, antes de Macau”, que acabaria por ser reduzido a cinzas em menos de cinco horas por uma força de sessenta mil homens e mais de trezentas embarcações. A catástrofe, informa Mendes Pinto, “custou a vida de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses que morreram nas chamas, a bordo de trinta e cinco navios e quarenta e dois juncos, uma perda avaliada em dois milhões e meio de cruzados de ouro”.

A acreditar no relato do aventureiro português, a ordem de aniquilação da feitoria teria partido do próprio vice-rei da província de Zhejiang, como retaliação pelo ataque e saque de uma aldeia das redondezas levado a cabo por Lançarote Pereira, um dos muitos lançados que actuavam por conta e risco próprio, tirando daí os maiores proveitos.

Esses comportamentos de alguns dos comerciantes portugueses – não só de Liampó, mas também de Chincheu, que, anos depois, teria a mesma sorte –, homens gananciosos e sem escrúpulos, cujas acções individuais levariam à ruína de todos, são, como afirma Jin Guo Ping, “confirmados pelas fontes chinesas oficiais e coevas, de modo que são incontornáveis para a história da presença portuguesa na China”.

Apesar dos documentos comprovativos, no que concerne Liampó, continuam por descobrir os vestígios físicos dessa presença. À partida, essa não é tarefa fácil. Não obstante, e segundo um relato de Montalto de Jesus, autor do Macau Histórico, até hoje a única história de Macau, teriam sido descobertos vestígios “dessa colónia” no século XIX, mais exactamente “as ruínas de um forte na localidade de Chin-hae de construção nitidamente europeia, com as armas de Portugal gravadas num portão, e o próprio templo, perto do portão da ponte, que foi atribuído aos portugueses de 1528 como associação de recepção de estrangeiros”.

Embora tivesse efectuado várias diligências efectuadas na região, não me apercebi de quaisquer indícios da lusa passagem, mas é bem possível que existam e aguardem, pacientemente, o seu redescobridor.

Joaquim Magalhães de Castro

ARMAS DO CARDEAL-REI DOM HENRIQUE

Foto de Nova Portugalidade.

Representação das armas do Cardeal-Rei Dom Henrique, último monarca da Casa de Avis. Inclui as armas reais portuguesas, a mitra e o galero cardinalícios e a insígnia do Tribunal do Santo Ofício, ou Inquisição, que Henrique dirigira como Inquisidor-mor do Reino.


AS CHAROLAS DO SOTAVENTO ALGARVIO

Foto de Nova Portugalidade.

Desde os tempos mais antigos que louvar o Natal pela graça do nascimento de Cristo, bem como saudar o ano novo que acaba de começar foi motivo de cantorias e autos. Por isso, Portugal tem uma forte tradição do canto das janeiras, de norte a sul, e nas ilhas, mas com particulares diferenças do que no Algarve em relação ao resto do país, visto que aí as charolas possuem um carácter e uma identidade que as torna especiais.

As charolas algarvias descendem da tradição medieval de se dançar em roda e cantar cânticos de alegria quando se comemoravam épocas festivas, como a Páscoa, o Pentecostes, o primeiro de Maio, as vigílias, as bodas de casamento ou as festas dos padroeiros das aldeias. No Algarve, só se conservou no Natal, e adulterada. É desta charola medieval - de que há registos, pinturas e iluminuras, não só na península Ibérica, como em toda a Europa cristã - que a charola algarvia descende. A dança só se conservou viva nos bailes de roda e no "balho mandado". Existe uma série de pequenas características que distinguem e fazem sobressair a charola, das joldras do Barlavento, dos grupos janeireiros, ou dos cantares dos reis. É de referir e de destacar o trabalho cuidadoso de quem conseguiu reorganizar esta matéria, de quem conseguiu provar através de buscas em documentação desde o tempo dos primeiros cristãos, entrelaçando as tradições que são hoje vividas com as crenças, o quotidiano e as necessidades dos povos que cá habitaram.

O Pe. José Cunha Duarte, na sua obra "Natal no Algarve - Raízes Medievais" (2002), faz um estudo, aprofundado, sobre o Natal algarvio, falando não só das origens do Natal, mas da origem dos presépios algarvios, com as cearas e as laranjas, das tradições gastronómicas, e em especial, do canto das Charolas e das Joldras. Como qualquer trabalho honesto que se possa fazer, a investigação do padre Cunha Duarte, para além da pesquisa bibliográfica exaustiva, foi também virada para uma série de entrevistas (que ele próprio fez) aos vários grupos charoleiros e a pessoas residentes de muitas zonas serranas e outras zonas isoladas, perpetuando assim muita informação etnográfica que poderia morrer, simplesmente, caindo no esquecimento.

As charolas marcam a sua diferença porque não só saúdam o "ano bom" e desejam prosperidade e felicidade, mas têm a sua vertente de piedade popular, porque cantam ao menino e aos reis. As temáticas das letras que são cantadas pelos charoleiros são poemas narrativos que contam os episódios da quadra, podendo abordar, desde a anunciação do anjo, à chegada a Belém e a adoração dos pastores e dos reis do oriente. O repertório do grupo, é construído, na maioria dos casos, por uma marcha de entrada, o Canto Velho, o “Pasodoble”, o Canto Novo, uma (ou mais) valsas, e a marcha de saída. O canto velho é o canto popular dos outros anos, que se repete sempre. O canto novo é o orgulho dos charoleiros, e é composton especialmente para aquele ano. Tanto o canto novo como o velho são iniciados por um "principiador", que levanta os primeiros versos, sendo depois o resto cantado por todos os elementos do grupo. A euforia das charolas conduziu estes grupos a uma proliferação de instrumentos, transformando-os em grandes grupos musicais, com uma ou duas dezenas de instrumentos: acordeões, violas, violinos, guitarras, banjos, bandolins, saxofones, trompas, clarinetes, e outros instrumentos de sopro. Ao conjunto de instrumentos que marcam ritmo e ornamentam estilo, é chamada "pancadaria". São as castanholas e pandeiretas, enfeitadas com fitas de muitas cores, que proporcionam belas coreografias e são reminiscências das danças e das representações que se faziam por esta altura festiva. Estes grupos atuam por diferentes zonas da freguesia, pelas ruas, no adro depois da missa, nos lares de idosos e nos cafés, nos mercados, e por todo o lado onde o povo aplaude e não deixa esquecer uma tradição que só pode ser valorizada.

A propósito dos grupos charoleiros, o farense Mário Lyster Franco, grande historiógrafo, etnógrafo e antropólogo algarvio, escreve em 1961: "Vão os grupos de monte em monte, às vezes por alguns quilómetros em redor cantando de sítio em sítio e principalmente em frente às casas que já sabem ou presumem que recebem bem e em que se sabe que está o Menino armado em seu trono no qual os motivos decorativos são principalmente as clássicas flores de papel, as laranjas bem amaduradas e as bem formadas cabeleiras e em que a própria imagem Divina em figurações diferentes se repete, desde o pequeno presépio no primeiro plano, à altura dos olhos, e depois uma, duas, três vezes, tantas quantas haja em casa, em sucessivos degraus até ao tecto. E ao cair da tarde, transidos de cansaço e, vamos lá, por vezes também pelas sucessivas libações a que as diferentes visitas obrigaram, em sítio previamente anunciado muitas Charolas se reúnem e há concursos, combates, competições e despiques."

Termino, com a letra do canto novo da Charola da Amizade de Santa Catarina da Fonte do Bispo, composto especialmente para este 2018, pela autoria do amigo da Nova Portugalidade João Carapeto.

"Numa noite fria e escura
Nada fazia prever
Que no meio da amargura
Um milagre divino fosse acontecer

Pois nessa noite em Belém
Na manjedoura nascia
Do ventre da virgem mãe
O menino Jesus, que nos trouxe alegria

- Refrão -
Cantemos aos céus
Esta melodia
Vamos dar as mãos
Ao filho de Deus
Que traga harmonia
Entre nós irmãos

E essa criança divina
Que o mundo ilumina
Pela sua aliança
Que traga para toda gente
Amor, paz e esperança

(Refrão)

Mas ó que noite tão serena
Um Presépio profundo
Pelo seu amor
Nos deste o tesouro do mundo
Jesus Salvador

Por esse menino Jesus
Celebra-se hoje o natal
Para lembrar a todos vós
Que a sua missão, era a paz mundial

Mas todos estamos cientes
Que tal é uma utopia
Então rezemos os crentes
Para que essa paz, regresse um dia!"

Tomás Severino Bravo


sábado, 13 de janeiro de 2018

UM PORQUÊ PARA SER MONÁRQUICO

Bandeira de Portugal


A questão do regime, em Portugal, tem sido um assunto ausente dos principais meios de comunicação social, o que a torna, de certa maneira, adormecida no debate público. Como tal, quando em conversas mais politizadas, onde a forma de designação do chefe de Estado vem ao de cima, sou recorrentemente confrontado com a pergunta: "mas porque é que és monárquico?" - se bem que duvido que similar interrogação possa ser feita aos - poucos - republicanos convictos que fui encontrando.

    Quando confrontado com essa curiosidade gosto de oferecer um só argumento, e um que seja muito simples, pois convém que nos lembremos que desde os bancos da escola que a ideia de República é associada ao progresso social e à democracia, de uma forma intelectualmente desonesta e que, se tivermos por referência a I República, não resiste a qualquer análise objectiva.

    E o argumento que lanço é o seguinte: o Rei é o melhor garante da democracia - entendida aqui à maneira Ocidental: Constituição, Liberdades, Parlamento. Tal resposta é, parece-me, o completo oposto do que os meus interlocutores estão à espera, habituados àquela associação democracia/república.

    Esta tese que proponho é acompanhada por uma pequena reflexão sobre os poderes constitucionais nas democracias europeias e como, pelo menos dois deles, estão sempre reféns de interesses partidários ou de grupo que, nas repúblicas, afectam, também, a figura do chefe de Estado. Convirá admitir que, do ponto de vista meramente constitucional, quando tudo corre bem, talvez não se sinta como flagrante tal situação; porém o problema ocorre quando o país se vê sujeito a um tipo qualquer de crise: aí, os interesses clientelares vêm à superfície, com dano para o interesse nacional - e o chefe de Estado passa a ser mais um patrono da sua clientela do que uma figura de referência e de estabilidade das instituições políticas.

    Ora, pelo contrário, é evidente que se a designação do chefe do Estado não tiver natureza electiva (leia-se, se for hereditária), tal ofício é subtraído à influência da 'partidocracia' ou dos grupos de interesses: tal circunstância permite que mais se possam rever no trono.

    Depois, tem igualmente importância a estabilidade do cargo e a tendencial longa duração dos reinados - não sujeitos a um contínuo 'tic-tac' eleitoral que antecipa a luta política. Esta estabilidade tende a reflectir-se nas restantes instituições de um país - os Parlamentos passam por menos convulsões, vemos surgir menos fenómenos revolucionários e há uma grande estabilidade constitucional, aspecto essencial para a manutenção dos nossos direitos, liberdades e garantias.

    Aqui chegados, procuro então acompanhar estes desenvolvimentos teóricos com um exemplo retirado da recente história política: com a excepção da Confederação Helvética, todos os países europeus que no ano de 1900 eram Monarquias e, sem interrupção, assim se mantiveram até ao ano 2000 foram democracias; pelo contrário, todos os que enveredaram pelo caminho republicano experimentaram, nesse longo século XX, pelo menos um momento autoritário ou totalitário. Todos! De um lado podemos incluir: o Reino Unido, a Suécia, a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda; já do outro: a Rússia, a Alemanha, a Espanha, Portugal.

    Esta pequena reflexão tem, habitualmente, o condão de começar a derrubar preconceitos e de permitir uma troca de ideias mais frutífera e, sobretudo, mais honesta. No fim, gosto sempre de atirar uma pergunta: “então porque continuas republicano?”.

Nelson Marques Nascimento